O sentimento não discriminatório do povo dinamarquês foi fundamental para salvar os judeus nesse país escandinavo
Os horrores da fuga e morte de população
civil inocente na invasão russa da Ucrânia despertam os fantasmas associados às
piores catástrofes humanas como o Holocausto. Como se sabe, Holocausto, também
conhecido como Shoá em hebraico, foi o genocídio ou assassinato em massa de cerca de 6
milhões de judeus durante
a 2ª Guerra Mundial, por meio de um projeto
sistemático de extermínio étnico religioso executado
pelo governo nazista alemão, liderado por Adolf
Hitler, que ocorreu em todos os territórios europeus ocupados pela
Alemanha e seus aliados e colaboradores durante a guerra. Dos 9
milhões de judeus que residiam na Europa antes
do Holocausto, cerca de 2 terços foram mortos, sendo cerca de 1 milhão de
crianças, 2 milhões de mulheres e 3 milhões de homens judeus, configurando a
maior tragédia orquestrada pelos homens na história da civilização humana.
No conceito mais amplo do termo Holocausto,
o genocídio nazista contra os judeus fez parte de um conjunto mais amplo de
atos de opressão e de assassinatos em massa cometidos pelo governo nazista
contra vários grupos étnicos, políticos e sociais na Europa, estando entre as principais
vítimas não judias do genocídio os ciganos, poloneses, comunistas, homossexuais,
prisioneiros de guerra soviéticos, Testemunhas de Jeová, maçons e deficientes
físicos e mentais.
a) Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto 27
de jan. de 2021 Sport
Club Internacional
b) Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto ONU News 26.01.2022
Holocausto nos países ocupados
pela Alemanha
Durante a guerra, a sistemática
de assassinato de judeus no Holocausto alcançou grande parte desse povo que habitava
os territórios europeus ocupados pelos nazistas alemães como na Polônia, onde
se concentrava o maior contingente de judeus antes da guerra, de cerca de 3 milhões,
dos quais somente 3% sobreviveram à guerra.
A grande excessão entre os países
ocupados pelos alemães foi a Dinamarca, onde do total de 7500 judeus residentes
antes da invasão alemã do país em abril/1940, somente cerca de 120 judeus
dinamarqueses morreram durante a guerra, ou seja pouco mais de 1%, conforme relatos
em livros como “Compatriotas Como os judeus da Dinamarca fugiram dos nazistas e
o surpreendente papel da SS”, de Bo Lidegaard.
Vários fatores explicaram essa milagrosa
salvação dos judeus dinamarqueses do Holocausto.
Primeiro,
foi o elevado grau de autonomia concedido às autoridades dinamarquesas pelos ocupantes
alemães, decorrente inicialmente pelo fato da Dinamarca ter decidido não resistir
à invasão alemã em abril/1940, por considerar totalmente inútil confrontar a esmagadora
superioridade militar invasora, o que se tivesse ocorrido só teria resultado em
derramamento de sangue inútil de combatentes dinamarqueses. A autonomia
concedida foi decorrente também da percepção dos alemães que consideravam os escandinavos
dinamarqueses como parte da raça superior ariana.
O segundo
fator decorre do primeiro, pois a autonomia recebida dos alemães levou a recusa
dissimulada dos oficiais e civis dinamarqueses em cooperar com a ordem nazista para
discriminar, identificar e, ao final, prender e deportar a população judaica, como
era a vontade da cúpula nazista em Berlim. A postura dos governantes
dinamarqueses era decorrente basicamente do pensamento da maioria absoluta da população
dinamarquesa que opunha a qualquer forma de discriminação e opressão, por fator
racial ou religiosa, contra os judeus pois estes estavam bem integrados à
sociedade democrática dinamarquesa há longo tempo como cidadãos responsáveis e
ordeiros.
O terceiro
fator está associado ao contexto político e militar da época de que a
deportação em massa dos judeus poderia prejudicar o bom relacionamento com o
governo dinamarquês na gestão da economia local, que era muito importante como fonte
de insumos para o esforço de guerra alemão. Outro aspecto decorre do status da guerra
claramente contrário à vitória alemã já naquela época, o que despertava o
receio aos oficiais alemães na Dinamarca
de que a injustificada hostilização à população judia poderia levar no pós guerra
à penalização por crimes contra a humanidade. Isso levou, inclusive a alguns
oficiais alemães a alertar os representantes da comunidade judia sobre a possibilidade
de deportação, o que de fato acabou ocorrendo a partir de 01.10.1943.
Mas de
todos esses fatores, o mais importante foi a postura da população dinamarquesa,
contrária à visão discriminatória contra os judeus, levando muito de seus
habitantes a ajudar os judeus em fuga a se esconder e se alimentar enquanto aguardava
as embarcações que partiam em direção à Suécia. A deportação dos judeus foi ainda
dificultada pela recusa da polícia dinamarquesa em cooperar e até pela inércia
de policiais alemães em aprisionar os judeus em fuga. Como resultado disso, apenas
cerca de 470 judeus foram encontrados e deportados para Theresienstadt, mas
desses praticamente todos voltaram vivos para a Dinamarca após a guerra.
A ação do povo dinamarquês em conjunto com a Suécia, que se dispôs a receber incondicionalmente os refugiados judeus, embora restrita a seus restritos territórios serviu como grande exemplo ao mundo, de que era possível opor à máquina de extermínio nazista. Maior contingente de judeus, que foram sistematicamente perseguidos a partir da ascensão ao poder pelos nazistas em 1933 e até o fim da guerra em 1945, poderia ter sido salvo, se mais países, inclusive o Brasil, ao menos, dispusessem a abrigar os judeus em busca de refúgio.
Shoji