sábado, 14 de novembro de 2020

COMO ESTÁ A MEIA ENTRADA DEVE SER EXTINTA

 A meia virou entrada inteira e não atende aos mais necessitados

Em uma consulta pública da Agência Nacional de Cinema (Ancine), encerrada em 13.07.2020, a Secretaria de Advocacia da Concorrência e Competitividade do Ministério da Economia opinou pela extinção das regras que determinam a meia-entrada em cinemas do País. A Lei federal nº 12.933, de 2013, prevê o benefício da meia-entrada para idosos, estudantes e jovens de baixa renda em espetáculos artísticos, culturais e esportivos. 

Leis estaduais e municipais também legislam sobre o tema, concedendo benefícios de meia-entrada de forma generosa, caso a caso, para, por exemplo, professores e servidores da rede pública de ensino, doadores de sangue, deficientes físicos, aposentados e pensionistas do INSS, portadores de certas doenças, etc. No Distrito Federal, em outro exemplo distorsivo, uma lei distrital de 2016 concedeu esse benefício aos vigilantes e profissionais de segurança, o que mostra claramente que esse benefício acaba sendo concedido para os grupos organizados com maior poder de pressão. 

Ref.:) Meia entrada pra estudante: quem paga a conta?

5 de abr. de 2016

Canal do Bom Senso

Quando muitos pagam meia, a meia vira a entrada cheia

Em função da falta de critérios rigorosos sobre o tema, o contingente de beneficiários hoje supera a metade da população brasileira, segundo a Ancine, de modo que em 2019 80% dos ingressos em cinema foram como meia-entrada. 

Essa altíssima proporção de meia entrada acaba forçando o aumento da entrada inteira, o que encarece o ingresso para os poucos que pagam o valor integral, configurando total distorção na formação de preço no mercado de entretenimento. 

A meia-entrada pode ser considerado como um sistema de subsídios cruzados  ineficiente. Como os preços são livres, o ônus maior recai sobre o grupo de pessoas que pagam a entrada inteira. Como essa parcela diminui, os preços sobem para manter a viabilidade do negócio, excluindo mais consumidores e forçando novo reajuste, num círculo vicioso. 

Para o ex-secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, a meia-entrada nos cinemas é uma distorção que se repete em diversos setores, como no crédito, que é subsidiado para alguns setores, e no transporte público, que é gratuito para alguns grupos. Se o Estado quer beneficiar algum grupo, deve pagar o subsídio com recursos do orçamento público. Mas, há outras formas melhores de usar os recursos públicos do que subsidiar entradas de cinema.

O Brasil tem há muitos anos essa prática de criar distorções, em que se oferece um preço diferente para um certo grupo, e o que acontece é que o custo tem que ser coberto e o preço cheio acaba ficando muito maior. Se todo mundo paga meia, a meia vira a entrada cheia.

A meia entrada não beneficia os mais pobres

Ademais, essa política é injusta por não beneficiar necessariamente aqueles de mais baixa renda, pois os critérios de concessão do benefício não se baseiam principalmente no critério de renda, mas sim de categorização dos consumidores, classificando os como estudantes, idosos, profissionais de ensino, doadores de sangue, etc. 

O Brasil é um dos poucos, senão o único país do mundo que concede meia-entrada instituída por lei, pois no resto do mundo geralmente os próprios empresários entendem a necessidade da diversificação de cobranças de acordo com o poder aquisitivo e faixa etária, segundo sua própria percepção sobre a melhor forma de atender às necessidade e condições do seu público consumidor. 

Em função das distorções provocadas, o benefício da meia entrada deve sofrer uma profunda revisão, caso haja alguma solução simples e viável, ou simplesmente a sua própria extinção. 

Shoji


sábado, 7 de novembro de 2020

PANDEMIAS ESTÃO RELACIONADAS À DEGRADAÇÃO DA BIODIVERSIDADE

 As pandemias são provocadas pelo contato dos humanos com animais que hospedam micróbios ainda desconhecidos

O trabalho encomendado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), conduzido por um grupo de 22 cientistas especialistas de diversas áreas, mostram as evidências da relação entre a expansão de doenças infecciosas transmitidas de animais para pessoas, como a atual pandemia do Covid-19, e a degradação da biodiversidade. O estudo, divulgado em 29.10.2020, alerta que futuras pandemias surgirão mais frequentemente, espalharão mais rapidamente e matarão mais pessoas do que o Covid-19 a menos que ocorra uma mudança drástica na forma de lidar com as doenças infecciosas. 

Ref.: a) Entenda a Relação entre Desmatamento e Pandemia

30 de mar. de 2020

Esfera Cientifica

b) O que desmatamento tem a ver com novas pandemias?

17 de ago. de 2020

Pesquisa Fapesp

As pandemias têm origem em diversos micróbios transportados por hospedeiros animais, mas seu surgimento é impulsionado por atividades humanas. As causas subjacentes das pandemias são as mesmas alterações ambientais que desencadeiam a perda da biodiversidade e as mudanças climáticas, o que inclui mudanças no uso da terra, expansão e intensificação da agricultura e comércio e consumo de animais silvestres.

Todas essas condições deixam animais de criação e pessoas próximos à vida selvagem, facilitando aos micróbios dos animais se moverem para as pessoas, levando a infecções, surtos e mais raramente a verdadeiras pandemias, que se espalham por diversas vias, por aglomerações urbanas e até em escala global. Segundo o trabalho do IPBES, 70% das doenças emergentes no mundo, como ebola e zika, e quase todas as pandemias (influenza, HIV/aids, Covid-19) são zoonoses, ou seja, causadas por micróbios que infectavam originalmente animais. 

O Covid-19 é ao menos a 6ª pandemia global desde a grande pandemia da Influenza de 1918, e tem origem em micróbios hospedados em animais mas como as demais pandemias foi impulsionado pelas atividades humanas. É estimada a existência de outros 1,7 milhões de vírus desconhecidos em mamíferos e aves, dos quais 850.000 teriam potencial de infectar seres humanos. 

Preservação da biodiversidade contra o surto de pandemias

O cerne da questão, portanto, não é culpar a natureza, mas entender que o surgimento das doenças ocorre pelo fato de estarmos afetando o ambiente onde os micróbios estão quietos, e a aproximação dos seres humanos a esses locus é causada pelo desmatamento, expansão demográfica e agrícola e o tráfico de animais silvestres. 

O estudo indica que é possível escaparmos da possível era das pandemias adotando medidas mais preventivas que reativas, basicamente reduzindo as pressões humanas sobre a natureza e a biodiversidade, o que seriam menos custosas financeiramente do que lidar com os efeitos das pandemias, como está ocorrendo atualmente com os impactos sanitários, sociais e econômicos do Covid-19. 

No Brasil, deve-se a alertar que a agressão ao meio ambiente continua sendo um fato cotidiano como o desmatamento da maior cobertura florestal do mundo, na Amazônia, das riquíssimas  mas cada vez menos extensas áreas do cerrado, do Pantanal, e ainda do que resta da  Mata Atlântica, acompanhado de queimadas e  outras agressões como os garimpos irregulares que acarretam perda da biodiversidade e colocam em risco de extinção as diversas espécies vegetais, cujos valores científicos e econômicos ainda são desconhecidos, bem como de diversas espécies animais, e ainda ameaçam os habitats e o patrimônio cultural dos habitantes primitivos do Brasil. 

Shoji